Nada me consta que seja verdadeiro este amor, no entanto se faz de poeta e me escreve contos limpos e poemas mornos que guardo em total carinho. Devolvo em sentimento nítido e também lhe faço versos que guardo com medo de ser pretenciosa. Emudeço.Ontem não fui vê-lo. Furtiva e quieta, venenosa e calma, desapareci.Pensa ser velho e só por isso me humilha. Justo eu, que sou tão antiga e frágil. Para ele sou sempre menina...mal me tira a blusa. E por pura defesa me despresa, me dispensa, me ignora e depois me quer fingindo não querer.Tem medo de perder a cabeça então grita palavrões depois de resmungar as palavras mais lindas, doces e puras. Tem um ciúme incrível porque lhe represento a vida, a amizade, a flor que nasce no agora.Quando desapareço, como hoje, quer saber o que fiz e
se afasta para melhor me ver com o olhar das certezas. Certifica e me olha com um olhar inteiro, medindo cada milímetro da minha altura.Gosta de me ver tocando flauta. Canções de Lennon, canções antigas.Faz festa com a certeza plena que me faz feliz. Pensa que vai me perder e se despede cedo. Tem medo de conversas secretas e falar sério é sinal de adeus.Nada consta que eu seja importante, porém me faz acreditar nisso absolutamente. Obviamente. Doce mentira, pois adora me trair, sabotar...esquece sempre que é comigo que sente e sonha o futuro.É presunçoso e egocêntrico, nivelou-me a todas por quem supõe ser amado.Hoje ele esqueceu de fechar a porta e eu entrei mansamente como uma borboleta sem sombras.Tirava de dentro do peito a muita tristeza que o combalia. Chorava.Como um passarinho, inseguro do seu voo, ele estava ali.E era tão bonito...muito mais bonito.
Um toque macio na porta. Mãos macias vem me mostrar a estrela-nova, a claridade do ano que nasce na divisa da linha imaginária do tempo.
Como um envelope lacrado, que surpresas trará? O que estará reservado? Promessas de alegria, de luminosa expectativa, incandescente esperança.
Trará violetas, trigo, caldo-doce-de-cana, este ano que espera ansioso os ponteiros se casalarem?
Andei lendo que Júpiter trará cultura, alegria sem receio e doçura. Que trará também tempo bom para o plantio da esperança.
Que todos os pastores soltem suas ovelhas de maciez aquecida, que todos os sentinelas abram os portões esquecidos do receber eterno, que todas as luzes acendam e iluminem a escuresa do difícil repartir. Que todos os homens coloquem, na divisa exata do tempo que chega, a sua ferramenta do construir, que todos os fornos assem o pão da doçura que será multiplicado para sempre!
Que dos meus, dos seus e de todos os olhos possa brotar o verdadeiro enxergar, aquele que lindo, há de ser pleno.
Que eu, você e todos possamos abraçar sem medo o fundo de nossas almas e tocar com maciez e tolerância a flor aberta do amor.
Que todos possam dar com carinho absoluto a caixa-presente do futuro, nas condições de um caminhar que nunca se cansa.
Que por trás do colorido, todos possam descobrir o branco que precisamos para colorir de pureza os cansados de pedir por justiça.
Que antes de tocar os sinos, que eu, você e todos possamos tocar o hino que nos faz gigantes e acreditados. Que não haja reservas nenhuma e nem medo. Sim que não haja medo, por que ainda somos meninos diante da grandiosidade do tempo e do amor.
Que não mais exista segredos, desistentes e fracassados...porque a estrela grandiosa há de brilhar sobre todos com igual brilho. E por ser Ano Novo que tudo renasça, cresça e tome conta desta bola azul, que flutua nos cosmos.
Que da janela do querer, possamos ver uns aos outros desarmados, apenas munidos do que é necessário para viver em paz.